Bíblia



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Princípios de interpretação bíblica

Divergências na fé costumam ser fruto, entre outros, de diferentes maneiras de entender a Bíblia. Confrontam-se uma interpretação literal e outra mais liberal. Joga-se a leitura popular contra a exegese acadêmica, e vice-versa. Denunciam-se o preconceito e a distorção arbitrária. De fato, a Bíblia pode ser abusada para dar legitimidade aparente às mais absurdas convicções. Torna-se objeto de disputa entre facções cristãs. Como assegurar-lhe a função de bússola da fé e protege-la contra o perigo de ser degradada a pedreira, da qual todos se servem a bel-prazer.

É tarefa da comunidade cristã zelar pela leitura bíblica e exigir-lhe disciplina. Certamente a Bíblia pode, ela mesma defender-se contra a violência dos intérpretes. A verdade cedo ou tarde vai julgar os defraudadores. Mesmo assim, esses podem causar estragos, que é preciso evitar. Há regras a observar quando se lê a Bíblia, no que a igreja luterana se vê particularmente comprometida a insistir. Listamos as mais importantes:

a) Importa distinguir entre o que a Bíblia disse e o que ela diz. Como livro histórico falou em sua época. Não é permitido ignorar a diferença dos tempos e dos lugares sob pena de falsificar o sentido. Deve haver coerência entre os enunciados ontem e hoje. Foi o que Lutero enfatizou. Rejeitou o sentido quadruplo que os textos teriam conforme a teologia medieval. Viu nisto uma artimanha causadora de deplorável caos interpretativo. O sentido dos textos é um só, o histórico que, ao mesmo tempo, é o espiritual. Para entender a Bíblia hoje, é preciso recorrer ao passado para então traduzi-la em novo contexto. Previne-se assim a manipulação dos textos.

b) Importa ler a Bíblia toda e resistir à tentação de isolar certas passagens. Cada versículo faz parte de um conjunto maior. A fragmentação dos textos favorece a confirmação de preconceitos dos e das intérpretes. Quem “filtra” a Bíblia para permanecer somente com as passagens “simpáticas” já não mais deixa a Bíblia falar. Deixou de aprender.

c) Importa ler a Bíblia criticamente, isto é, a partir de Jesus Cristo. Pois embora não seja permitido desconsiderar as partes “antipáticas”, os textos bíblicos necessitam de avaliação. A exaltação da vingança, por exemplo, que se observa em alguns salmos (Salmo 149.7, por exemplo), colide com o amor aos inimigos, pregados por Jesus. Algo análogo vale com relação à discriminação da mulher. Que Eva seja mais culpada do pecado que Adão (1 Timóteo 2.13ss) não pode ser sustentado perante o tribunal de Jesus Cristo. Os textos bíblicos não deixam de mostrar reflexos dos condicionamentos humanos de seus autores. Por isso mesmo, Jesus Cristo é o juiz da Escritura e de cada uma de suas partes.

d) Importa ler a Bíblia como membro da comunidade cristã. Não só eu leio a Bíblia. Outros leem também. Por isso devo testar a solidez da minha leitura no intercâmbio com os demais, sejam leigos, pastoras, acadêmicos, sejam pessoas do passado ou do presente. Ninguém tem um monopólio. O Espírito Santo distribui seus dons a todos.

Compreender exige esforço, humildade. A Bíblia é como um campo cheio de tesouros. Para encontra-los é necessário revirar a terra.

Pastor Dr. Gottfried Brakemeier, em “Por que ser cristão?”, Editora Sinodal

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