Somos família, família de Deus.

Em busca de discernimento para a atuação da família cristã nos dias de hoje.

30/09/2018

Efésios 3.14 Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, 15 de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, 16 para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; 17 e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, 18 a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade 19 e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.


Somos família, família de Deus

Nestes tempos bicudos onde, além de tudo, falar em família já serve de motivo para que algumas pessoas classifiquem outros de fascistas ou de retrógrados, entendo que é urgente o resgate de alguns valores que ficaram perdidos quando o assunto é família, por consequência de nossos próprios desvios.

Nós, pessoas cristãs, caímos nas armadilhas do secularismo e de ideologias que desconstroem os valores fundantes da nossa fé. Precisamos admitir isso. A boa notícia é de que podemos resgatar esses valores. Ah, alguns também acusam os que resgatam verdades bíblicas de fundamentalistas, mas isso não faz mal. Antes nos apoiamos na notícia que diz: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus.” (Efésios 2.19) Tem mais: para todas as pessoas que no assunto “família” se sentem deslocadas vale a promessa que diz “Deus faz que o solitário more em família; tira os cativos para a prosperidade; só os rebeldes habitam em terra estéril.” (Salmo‬ ‭68.6)‬‬.‬‬‬

Quando se desfaz a família, se desfaz o ser humano

Não se trata de cair nas fábulas das teorias da conspiração que existem por aí, mas sim, de prestar atenção nos movimentos que são feitos no campo ideológico. É ideologia seguir os postulados de Marx – a família é a origem da propriedade privada – e especialmente Engels que ridiculariza o casamento monogâmico – escravização de um sexo sobre o outro – ou os arroubos de Kate Millet – filha de pai violento e alcoólatra que abandonou a família quando Kate tinha 14 anos, deixando mãe e filha na pobreza – pedindo o fim dos tabus do homossexualismo e a promoção das relações sexuais na adolescência. Estas ideologias levam as elites intelectuais e televisivas a fazer uma frente de defesa a estes pensamentos liberais que, muitas vezes, levam à promiscuidade. Some-se a isto que nesta semana a inclusão da ideologia de gênero nos Planos Municipais de Educação e, na segunda-feira dia 24 de setembro, a Resolução Conjunta do Conselho Nacional de Assistência Social incluindo as crianças na necessidade de elas mesmas reconhecerem sua identidade de gênero, avançaram mais um passo nesta proposta entendida por politicamente correta.

Quem ajuda fortemente a desfazer a família, além da falta de compromisso cristão das próprias famílias, é essa tal ideologia. O que são ideologias? São ideias, convicções e princípios filosóficos e políticos que caracterizam o pensamento de um movimento. São, portanto, estruturas sofisticadas que pretendem justificar alguns pensamentos e algumas ações, que têm a capacidade de blindar estes pensamentos contra a própria precariedade e contra suas mentiras. As ideologias encontrarão uma barreira lógica quando tropeçarem na realidade. Por isso as ideologias agem traiçoeiramente – mentirosamente, ferem o calcanhar – enquanto seus seguidores perdem a capacidade de refletir a realidade. Ideologias são linhas de argumentação de pessoas que não conseguem mais espelhar o outro, somente a si mesmo.

Quando a família é desfeita, quando o outro é ignorado, se desfaz a essência do ser humano: a alteridade, a capacidade de olhar para além de si. Isto é análogo ao desfazer a fé cristã centrada no amor ao próximo. Segundo Paulo, as pessoas que comungam da mesma fé se estabelecem como uma família. Quando a fé é substituída pela ideologia, o “homem interior” é enfraquecido (v.16) e o seu coração perde o compasso do ser família. Assim a família é desfeita.

A família com discernimento cristão

A outra pessoa sempre terá a capacidade de me fazer pensar como ser humano. O apóstolo Paulo expressa isso assim: a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento (v.18s). Ser concidadão, ter uma relação de parceria com outros santos, é uma qualidade que ideologia nenhuma poderá imprimir na alma humana.
Aí entra a importância vital da família. À medida que a família se fortalece, aumenta a possibilidade de discernimento. Uma família forte põe os defensores da desestruturação social a tremer. Afinal, como se pode ser forte em favor da luta de classes se a família permanece forte?

A família cristã potencializa a força do discernimento, que é um dom espiritual, conforme 1Coríntios 12.10. E esse é um movimento espiritual na alma da pessoa dentro da perspectiva da parceria cristã. Quando a família aprende a evocar o outro para dentro do seu discernimento de vida, aprende a se “desensimesmar”.

O senso crítico que reaparece quando a família cristã tem discernimento da realidade ao seu redor é algo simplesmente libertador. As ideologias escravizam e não permitem a reflexão. “Quem é contra minha forma de pensar, é desacreditado e caluniado.” Ao passo que pessoas com discernimento e com uma criticidade bem elaborada – também a partir da Palavra de Deus – são capazes de desbancar o reinado do “eu” para valorizar o “outro”.
Isto é ser justo. Já mencionei na semana passada que o tecido social clama pelo ético, por justiça. Isto é sabido de todos nós. É na família que vai sobressair o que é justo. Justo é diminuir o eu e promover o ele. (João 3.30) Justo sempre será alinhar-se ao outro, e não vilipendiar (faltar com respeito, desprezar, desconsiderar) o outro.

Vilipêndio com crianças e adolescentes

Não há ninguém mais vulnerável na constituição familiar que a criança. Pais zelosos estão hoje de cabelo em pé por perceberem que nossas escolas e instituições de formação de crianças e adolescentes estão dominadas por ideologias que desprezam a família.

Mesmo que a Resolução Conjunta do Conselho Nacional de Assistência Social da qual já falei ressalta que as pessoas responsáveis pelas crianças devem ser consultadas quanto ao assunto, sabemos que a esmagadora maioria das famílias não se importa mais com uma educação cristã fundamentada pelo discernimento da alteridade. A maioria dos pais, ao que parece, infelizmente não se opõe à doutrinação que defende a pedofilia como arte – há projetos nas Câmara Federal pedindo que a pedofilia seja aceita como uma manifestação normal –, ou não reconhecem nesta liberdade os instrumentos de revolução. Crianças erotizadas e adolescentes que tem iniciação precoce ao ambiente de sexualismo tampouco vão ter interesse na formação de uma família. (Quem se ocupa em conhecer as propostas da PL 8.035/2010 que afirma que ninguém nasce masculino ou feminino ou da PL 236/2012 que torna a pedofilia um ato lega?)

Crianças estão sofrendo estes abusos sem que muitas famílias se apercebam disso. E, conforme a psicóloga infantil Priscila Badotti, estas crianças têm sua infância diminuída, sua adolescência desvirtuada para dentro de um mundo adulto. É fácil perceber que estas crianças vilipendiadas – das quais hoje se pede uma definição de qual sexo querem ser, se incentiva a brincar com o corpo do colega do mesmo sexo – não serão adultos com estrutura física e emocional para viverem com liberdade e alegria o ser imagem e semelhança de Deus.

Nem estamos ainda falando daqueles seres que perdem a vida antes de verem a luz vidas interrompidas por um aborto.

A nova família

O conceito de família está enormemente ampliado. Não podemos mais fechar os olhos para a realidade da nossa sociedade. Em boa parte, esta nova constituição familiar é fruto da falta de discernimento cristão. Da mesma forma precisamos admitir que a nova família já é consequência do desprezo com que ela está sendo tratada.

Bem por isso não é o momento agora de ignorar e sim de abraçar esta nova família. Não tenho outra proposta que a de resgatar o quanto possível da família para dentro da amplitude do amor cristão. Não há outro caminho que restaurar a família de acordo com o coração de quem a criou: Deus.
O pecado agiu como num ataque sorrateiro ao calcanhar da humanidade. Cabe agora à cristandade pisar a cabeça desta cobra. Como escreveu um importante líder cristão há não muito tempo, “na luta pela família está em jogo o próprio homem”. O ser humano é atingido irreversivelmente quando se atinge a célula mater da sociedade. Se as ideologias de gênero fazem seu trabalho meticuloso de desconstruir, implantando seu projeto cruel e perverso de acabar com a família, a família de Deus ocupa seu lugar de resgatar os valores da Cruz de Cristo.

Conclusão

“Conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” leva todas as pessoas a serem “tomadas de toda a plenitude de Deus” (v.19). Ter a consciência dos perigos e mesmo dos erros é o primeiro passo para ter uma mente alargada. Mente alargada é aquela que pensa de forma justa. Pensar e viver de forma justa é honrar seus sentidos no âmbito físico, celebrar o amor no âmbito emocional, promover o discernimento e a razão no âmbito intelectual e reconhecer a unidade na diversidade no âmbito espiritual.

Injustos se prestam ao exclusivismo, à falsidade e ao sentimento de imunidade devido a sua individualidade.

Jacó, o irmão de Esaú, prejudicou a estrutura da sua família de maneira cruel. Mas o arrependimento lhe fez alargar o pensamento. “Então, disse Jacó à sua família e a todos os que com ele estavam: Lançai fora os deuses estranhos que há no vosso meio, purificai-vos e mudai as vossas vestes.” Gênesis‬ ‭35.2‬‬‬

Que Deus nos dê discernimento e inteligência para que, na família, a fé cristã faça a diferença, em favor do outro, em favor da sociedade.

Amém!
 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Efésios / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 14 / Versículo Final: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 49116
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Martim Lutero
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